EU QUERIA ESTAR NO LIMBO
Estou aqui hoje pra compartilhar com vocês uma coisa que tem me passado pela cabeça desde a semana passada. Parece meio estranho até. Ainda mais pra quem anda pela rua todo dia, assim como eu. Mas tirem suas próprias opiniões.
Na semana passada fiquei adoentado. Tal fato me rendeu dois dias afastado do trabalho. Como estava de repouso absoluto e a família na praia, minha única companhia foi a televisão. Quando estou na frente dela, me sinto mais inclinado a assistir programas esportivos, musicais e jornalísticos. Assistindo um deste último tipo, me deparei com uma matéria que fazia parte de uma série que falava sobre a Suécia. Um telespectador menos interessado pensaria: “e por que cargas d’água uma emissora faz uma série de reportagens sobre a Suécia?” , afinal de contas, a maioria de nós aqui não sabe muito a respeito desse país. Mas o desenrolar pode nos trazer a possibilidade de avaliar a realidade em que vivemos aqui, praticamente do outro lado do mundo. Continuando: nessa matéria eram abordados vários aspectos da qualidade de vida do tal país. Coisas como a preocupação com o meio-ambiente utilizando veículos não poluentes, a licença maternidade/paternidade que é de 400 dias e pode ser dividida pelo casal da forma que entenderem ser melhor, o incentivo do governo para aumentar a taxa de natalidade com intenção de tornar a média etária da população mais jovem e os supermercados na Suécia. Os últimos dois temas acima foram os que mais em chamaram a atenção.
Sobre natalidade: vocês sabiam que lá o governo PAGA US$1.000,00 mensalmente para cada filho que o casal tiver. Paga até os 18 anos ou até os 21 se ele estiver estudando. Eles alegam que precisam “tornar a população mais jovem”, pois a média de idade lá está cada vez mais alta.
Agora sobre os supermercados: me deixou boquiaberto ver o repórter dizendo que lá não tem operadores de caixa nos estabelecimentos. O cliente simplesmente entra, pega um carrinho que tem um leitor de códigos de barra e registra as próprias compras. Podemos ver que se o cliente quiser tirar vantagem – dizem que lá não ocorre – ele pode deixar de registrar algumas coisas do carrinho. E o que mais espanta é o fato de também não ter ninguém para fiscalizar se estão registrando os produtos ou não!
Quando acabou a tal matéria, mudei de canal. Parei em outro e começou a minha confusão mental.
Na outra emissora, estava sendo apresentada uma matéria sobre o desenvolvimento do Brasil nos últimos anos. Em dado momento, um comentarista sobre política e economia disserta a respeito da divisão do planeta do ponto de vista do desenvolvimento. Fala sobre o Primeiro Mundo e as ótimas condições em que tais países se encontram. Depois fala sobre o Terceiro Mundo, abordando países pobres da África, Ásia e América Latina. Ressaltou que o chamado “Segundo Mundo” deixou de existir quando do desmembramento da União Soviética, no início dos anos 90. Pouco depois, voltando o tema da divisão do planeta para o Brasil, ele disse que “já não estamos mais no Terceiro Mundo, mas sim, NO LIMBO entre o Primeiro e o Terceiro Mundo”. Não deu para entender mais nada.
Mesmo sem querer, fui obrigado a pensar na matéria que assistira antes sobre a Suécia. Tentei transpor a questão da natalidade e dos supermercados para nossa realidade: seria impossível aquilo ocorrer por aqui. Cada pessoa passaria a ter uns 20 filhos e os supermercados iriam todos à falência. Nosso povo não está socialmente preparado para medidas assim. Infelizmente não está.
Façamos então uma profunda reflexão sobre o que disse o comentarista disse: Estamos mesmo “no limbo”? Será mesmo?
É inegável o avanço do país nos últimos anos. Ocorreram muitas mudanças positivas em quase todos os campos. Internacionalmente nunca fomos tão respeitados, o que atrai investimentos do tal Primeiro Mundo. Mas dizer que não somos mais “terceiromundistas” parece piada. E de péssimo gosto.
Vemos cada coisa pela rua e pela mídia. Acontecimentos que nos deixam pasmos cada vez mais. Crimes, corrupção, preconceito, intolerância, violência gratuita, falta de cultura e etc. Será que estamos no tal limbo ou foram os outros países que pioraram sua situação? Fico com a segunda opção, sem dúvida alguma. Estamos tão bem assim “na foto”? Acho que não. Esse negócio de limbo não existe. Na minha opinião, podemos nos classificar como “dos males o menor”, por mais que possa doer em mim dizer isso. Desistir não pode fazer parte do nosso vocabulário. E por mais que eu pareça incrédulo, ainda tenho esperança de que faremos desta terra um lugar melhor pra se viver. Um dia a gente chega, eu espero. Pelo menos no limbo.
Abraços
Ricardo Saldanha