O PREÇO DO TEMPO
Queria compartilhar com vocês um fato que me causou profunda estranhesa e espanto no dia de hoje. Na verdade foi um misto de revolta e descrença…
Atualmente trabalho na parte da manhã. Tenho um intervalo de pouco mais de duas horas para descanso entre as jornadas de trabalho. Pelo fato de estar perto de onde moro, consigo ir até minha casa comer algo e descansar um pouco. Pra quem acorda muito cedo, dormir um pouquinho que seja já vale muito. Pois então…
Minha residência se localiza perto de alguns prédios públicos, orgãos governamentais da esfera do poder municipal. No dia de hoje, quando chegava em casa por volta de 9:45 da manhã, percebi que em um desses prédios havia uma empresa (ah, as empreiteiras…) prestando um serviço de reforma da pintura. Prefiro não divulgar o nome do orgão e nem da empresa por questões óbvias. Voltando ao relato: um rapaz de aproximadamente trinta anos e que parecia ter saúde perfeita preparava uma janela para receber nova pintura. Enquanto ele lixava a abertura conversava com seu colega que acredito ser seu auxiliar, pois a dita janela era um pouco alta, tornado-se necessário o uso de uma escada para realizar o serviço a contento e de forma mais prática e rápida. Repito que neste momento eram 9:45. Como tenho meio que nas veias essa coisa de “fiscalizar” o que acontece com o “nosso” dinheiro (sim, eu sou chato! hehehe), prestei bastante atenção no serviço que o rapaz fazia. Reparei no que ele já havia feito e diria que “estipulei” o tempo que eu mesmo levaria pra realizar a mesma tarefa que ele. Fui para casa.
Por volta de 11:15 tornei a passar pelo mesmo local, desta vez retornando para finalizar minha jornada de trabalho após meu intervalo. Minha surpresa: os dois funcionários da tal empreiteira estavam lá no mesmo local sentados fumando e falando de futebol. Não condenei-os pelo fato de saber que este tipo de trabalho é bem cansativo, sendo necessário descansar um pouco pra continuar, até para uma boa realização. Peguei meu ônibus e fui trabalhar.
Após finalizar meu trabalho, fui para casa e passei pelo mesmo local pela terceira vez às 14:00. Foi decepcionante ver que a tal janela ainda estava exatamente do mesmo jeito que vi pela primeira vez nesta manhã. Mais de quatro horas depois! Ah, e antes que perguntem: os funcionários estavam lá sim… sentados no mesmo local conversando.
Fazendo um raciocínio mais amplo comecei a pensar no quanto estamos cercados de coisas deste tipo: morosas e desinteressadas. Pensei nas obras de duplicação de estradas que por demorarem demais, tiram vidas de algumas e tomam o tempo de outras. Pensei nos hospitais que não tem leitos suficientes para nos atender pelo fato das tais empreiteiras levarem, em alguns casos, até o dobro do tempo para concluir obras simples e vitais. E poderia ficar aqui o dia inteiro falando de coisas do tipo.
Meu raciocínio foi ainda mais além: pensei nos parlamentares que passam um ano inteiro sem aprovar um projeto que seja. Pensei na empresa (95% municipal) onde trabalho já fazem três anos e meio, em que DESDE SEMPRE o quadro de funcionários está defasado em relação às necessidades para que ela funcione plenamente prestando um bom serviço para a população que já paga bem caro por ele. Pensei… Pensei… Pensei… Quase enlouquecedor ficar cogitando o quanto nosso país seria melhor para todos se houvesse mais vontade naqueles que são votados e mais capacidade de indignação naqueles que votam.
Por quanto tempo ainda seremos vítimas de situações desse tipo? E se pudéssemos converter todo esse atraso em dinheiro, qual seria o tamanho do montante? Quanto custa nosso tempo? Quanto? Se alguém souber dizer, tenho interesse de vender alguns desses minutos meus (que perdi para os governos lentos e inertes) pra comprar um carro e uma casa nova. Mas certamente o meu tempo não vale tanto quanto o deles. E o mais incrível: sou eu quem os paga. Pago caro. Pago caro pelo tempo deles para gastarem meu tempo a toa. Quem pagará pelo meu tempo?
AbraçoS AuditivoS
Ricardo Saldanha